escritura estilhaçada

R$ 38,00

ISBN: 978-65-81305-01-7 Categories: ,
Descrição

texto e ilustração: mina loy
tradução: maíra mendes galvão
nota biográfica: alexandre barbosa de souza
editora: 100 cabeças

escritura estilhaçada – manifesto feminista, notas sobre a existência e outros escritos

pela primeira vez no brasil, mina gertrude löwy (1882-1966) chega em edição bilíngue (português/inglês). eis a “bufona do serviço secreto da causa da mulher”, propulsão da libertação feminina, que escreveu, desenhou, orientou a vida pelo desejo libidinoso, amou e foi amada como poucas.

a escritora inglesa teve a vida agitada, em trânsito pelos mais energéticos círculos artístico-intelectuais do começo do século XX. após estudar arte em munique e londres, sua cidade natal, mudou-se para paris, onde participou dos badalados encontros na rue de fleurus 27, organizados pela escritora, editora e mecenas gertrude stein. além de amiga, loy também admirava sua obra, cuja opinião está impressa em escritura estilhaçada no poema e ensaio homônimos, com palavras de deslumbre pela escritora que “esmagou a tonelagem/ de consciência coagulada em frases” e lhe inspirou “rara coragem”. as duas se aproximam no que mina descreve da americana, como quem “não usa palavras para apresentar um assunto, mas sim um assunto fluido onde suas palavras podem flutuar”.

de espírito volante, mina loy também engrenou-se entre os futuristas na itália, orbitou na explosiva esfera dadá em Nova York, onde conheceu o poeta pugilista arthur cravan, um de seus mais profundos amores, e os encabeçadores do movimento na cidade: duchamp e man ray. passado o luto após a trágica morte de seu amante, segue o rastro dos dois últimos de volta a paris nos “anos loucos” do “entreguerras”. os círculos coincidem com os últimos suspiros dadás e os primeiros voos dos surrealistas entre mundos de muita fertilidade criativa, resultante no lançamento seu único livro de poemas, guia lunar (lunar baedecker, contact pub. co, 1923).

ainda que fosse estimulada pelas vanguardas do pensamento artístico-moderno, a escritora inglesa não atravessou passiva nenhuma delas. no “manifesto feminista” (1914), propõe às mulheres que desmascarem as “ilusões de estimação”, descartar as mentiras dos séculos. sua radicalidade combate “a irresponsabilidade do macho”, o futurismo dos homens com máquinas fálicas e duras, com a única reforma possível: a “demolição absoluta”. foi essencial para a renovação-crítica do espírito surrealista, cujos comprometimentos do movimento contra a opressão patriarcal via como propícios, mas que careciam de olhares da perspectiva feminina para desvincular a percepção da “esguia silhueta do ego” na objetificação do corpo da mulher, muito vista como “musa”, “mulher de”.

nesta edição, mina loy evoca a força de vênus como uma mariposa grávida guiando-se pela luz crepuscular até a lua, onde bota os ovos reluzentes. no poema “parturição”, “longo como sói ao próprio trabalho de parto, desenrola em paralelo uma subjacente narrativa e sua possível contraparte metafórica como nascimento de ideias”, escreve a tradutora maíra mendes galvão. no texto “traduzindo mina loy”, deixa claro que a autora chama atenção “primeiro pela estranheza que salta aos olhos” e se desenrola com a sensação de “uma qualidade de trapaça, de haver sempre algum truque de espelhos, algo escondido bem na superfície”. para isso, a edição é cuidadosa em respeitar os espaçamentos improváveis, variações no tamanho da letra e grifos da própria autora. como no poema “bomba-relógio”, que, “é um caso menos misterioso de experimentação com pontuação. (…) aqui ela usou espaços e uma certa tabulação para sugerir tanto ritmo quanto espaço físico, talvez algo pendular, um movimento que lembra, seja como for, a periodicidade do relógio”.

mina loy, recuperada desse “esquecimento editorial”, tão atual e essencial, desembarca em solo brasileiro, em momento oportuno. é força da maré revolta contra a lógica má-formada por perspectivas que ignoram o desejo. contra “névoa da moralidade social”, com “visão em blecaute”, escreve com essa escritura derrotada ansiando que leitoras e leitores abram as páginas e juntem os cacos.